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A IRMÃ DE LEITE DA PRINCESA



romance publicado todos os domingos em episódios sequenciais
autor: Jorge Francisco Martins de Freitas

Episódio 24

No início de 1879, D. Carlos e a sua comitiva regressam a Lisboa, após terem estado em diversas cortes europeias.

Maria Isabel concede a si própria uns dias de repouso na mansão dos Marinhais, na companhia de Ana Francisca, Alfredo e Diogo.

Capitão Rodrigo de Andrade

Na véspera de voltar a residir no Palácio da Ajuda, a fim de dar seguimento às suas funções de perceptora do futuro rei de Portugal, a Marquesa de Marinhais convida o noivo para jantar em sua casa.

— Apresento-vos o senhor capitão Rodrigo de Andrade – diz Maria Isabel, dirigindo-se à sua família.

— Tenho muito prazer em conhecer a família da senhora Marquesa – afirma o diplomata, fazendo uma ligeira vénia.

— O prazer é todo nosso – retribui Alfredo. — Apresento-lhe a minha esposa Ana Francisca, o nosso filho Diogo e o doutor Fonseca, advogado da família.

Após o capitão ter cumprimentado, um a um, todos os presentes, Alfredo convida-o a acompanhá-lo até à sala de jantar.

Sentam-se todos à mesa, tendo o capitão Andrade ficado ao lado de Maria Isabel.

— A minha enteada comunicou-me que vossa senhoria pretende casar-se com ela – diz Alfredo.

— Sim, é verdade. Sinto grande afeição por Maria isabel.

— Já soube que é neto de um general e que o seu pai é deputado pelo Partido Progressista.

— Efetivamente, assim é.

O doutor Fonseca intervém na conversa, dizendo ao capitão:

— Como sabe, a senhora Marquesa é detentora de uma vasta fortuna. Já teve vários pretendentes, mas ela recusou-os a todos, alegando que estes apenas pretendiam os seus bens.

— Comigo isso não se passa. Pretendo casar-me com ela apenas porque a amo.

— Nesse caso, certamente não se oporá a assinar um contrato pré-nupcial.

O capitão fica momentaneamente perplexo com esta pedido, mas rapidamente se recompõe, perguntando:

— Qual o conteúdo desse contrato?

— Através dele, o senhor capitão desiste de tomar posse dos bens da senhora Marquesa, continuando os mesmos a serem administrados por ela.

O rosto do capitão Rodrigo de Andrade empalidece, mas acaba por retorquir:

— Irei assinar esse contrato! O meu ordenado de capitão será suficiente para o sustento da minha nova família!

— Muito bem, senhor capitão! Vamos combinar uma data para a assinatura do documento.

O jantar continua a decorrer harmoniosamente, para grande alegria de Maria Isabel. Pela primeira vez, havia aparecido um pretendente que se propunha casar com ela por amor e não pela fortuna que detinha.

Nos dias imediatos, a marquesa estranha não receber mais notícias do capitão, mas considera que essa ausência se deve a compromissos oficiais que o impedem de a contactar.

Volvidos dois meses sem qualquer outra notícia, acaba por assumir a cruel realidade: Rodrigo de Andrade era mais um candidato que apenas pretendia apoderar-se da sua fortuna.

A meio desse ano, Maria Isabel, no decorrer de um sarau cultural no palácio da Ajuda, é apresentada ao coronel Silveira, um idoso oficial aposentado do exército real. Após algumas frases de circunstância, este acaba por lhe dizer:

— Sei que está ou esteve para se casar com o senhor capitão Andrade. Permita que lhe diga que ele não a merece.

— Porque diz vossa senhoria isso?

— Atualmente, encontra-se numa missão de serviço em Havana. Antes de partir, durante um convívio de oficiais, falou de maneira muito depreciativa sobre vossa senhoria.

— O que disse ele sobre mim? – questiona a marquesa, antevendo, desde logo, que iria escutar palavras que muito a afligiriam.

— Lutei sob as ordens do senhor general Mascarenhas, seu ilustre avô, por quem sempre tive uma enorme admiração. É, por conseguinte, com extrema mágoa que lhe transmito que o capitão Andrade afirmou que vossa senhoria se fazia passar por uma pessoa muito culta, mas era, segundo as suas palavras «a mais ignorante das mulheres» e que «tinha a mania que era tão importante como qualquer homem».

— Ele nunca me disse tal coisa! Foi sempre muito educado!

— É evidente que na presença de vossa senhoria se apresentava muito cordial, mas confessou-me que assim que tivesse acesso à sua fortuna haveria de… perdoe-me, mas não me atrevo a repetir o que ele disse.

— Repita, por favor, senhor coronel, preciso conhecer toda a verdade!

— Ele afirmou que haveria de a domar!

Maria Isabel fica devastada com esta revelação, tomando, de imediato, uma decisão: nunca mais pensaria em se casar!

Madalena, noiva de Diogo

No final de 1879, num jantar que reuniu toda a família na mansão dos Marinhais, Diogo faz-se acompanhar de uma encantadora jovem.

— Querida irmã: apresento-lhe a Madalena!

— Tenho muito gosto em a conhecer – afirma Maria Isabel, beijando-a.

— Ela é enteada de Consiglieri Pedroso, membro do Partido Republicano. Ficámos noivos na semana passada, com a concordância tanto do meu pai como do padrasto dela – afirma Diogo, radiante.

— Seja bem-vinda à nossa família – responde Maria Isabel, esboçando um sorriso.

— Já ouvi falar muito bem da senhora Marquesa. O meu padrasto disse-me que possui uma grande cultura e é adepta da igualdade entre todos os seres humanos.

— Agradeça ao senhor Consiglieri Pedroso as amáveis palavras que teceu sobre mim, mas apenas me considero uma cidadã com uma visão menos retrógrada da sociedade.

Parlamentares

A Monarquia Constitucional portuguesa continua a ter sucessivos governos com fraca durabilidade. O 36.º, chefiado por Fontes Pereira de Melo, no poder desde 28 de janeiro de 1878 é exonerado a 1 de junho de 1879, sendo substituído, na mesma data, por um outro presidido por Anselmo José Braamcamp. Este último, será, por sua vez, exonerado a 25 de março de 1881.

Nas eleições legislativas realizadas a 19 de outubro de 1879, o Partido Progressista obtém 106 dos 137 lugares na Câmara dos Deputados. O Partido Republicano perde metade dos votos obtidos nas eleições realizadas no ano anterior, ficando apenas com um deputado.

Nas eleições ocorridas a 21 de agosto de 1881, o Partido Regenerador obtém 101 assentos no Parlamento. O Partido Republicano, com 1% dos votos, continua a deter um deputado.

Locomotivas “Outrance”, semelhantes à série 41 a 52 que circulou em Portugal

No campo do desenvolvimento das infraestruturas ferroviárias, inúmeras estações e apeadeiros são inaugurados. A partir de 1879, doze locomotivas a vapor da série 41 a 52, conhecida como caranguejas, são adquiridas pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses. Eram idênticas às utilizadas pela francesa Compagnie des Chemins de Fer du Nord, sendo a única diferença o menor diâmetro dos rodados conjugados. A 1 de junho de 1880, é inaugurado o troço ferroviário entre a Régua e o Pinhão, do qual faz parte a Ponte do Rio Corgo.

Serra da Estrela, o ponto mais elevado de Portugal continental

Organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa, inicia-se, a 5 de agosto de 1881, uma expedição científica à Serra da Estrela, dedicada ao estudo e observação científica daquela região.

Cientistas de variadas áreas, como Arqueologia, Botânica, Etnografia, Fotografia, Geologia, Hidrografia, Medicina, Meteorologia, Química, Topografia, Zoologia e Zootécnica permanecem entusiasticamente ali durante 19 dias, integrando um evento pioneiro em Portugal.


© Jorge Francisco Martins de Freitas, 30-10-2022.
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