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A IRMÃ DE LEITE DA PRINCESA



romance publicado todos os domingos em episódios sequenciais
autor: Jorge Francisco Martins de Freitas

Episódio 23

A 1 de janeiro de 1878, realiza-se o II Recenseamento Geral da População de Portugal, abrangendo o território nacional no continente europeu e os arquipélagos dos Açores e da Madeira.

Face ao senso realizado catorze anos antes, a população de Portugal aumentou 8,64%, tendo sido contabilizados 4 550 699 habitantes.

Diogo

A 16 de fevereiro de 1878, Diogo, que se tornara um garboso jovem, completa dezasseis anos de idade.

A Marquesa de Marinhais sempre se preocupou com a formação do seu meio-irmão, ministrando-lhe pessoalmente aulas e inscrevendo-o num dos melhores colégios de Lisboa, dada a impossibilidade de este frequentar a escola de que ela era dona, destinada apenas a raparigas. Alfredo, pai de Diogo, também procurou cuidar da sua educação, incutindo-lhe os ideais republicanos.

Diogo foi sempre um aluno exemplar, pretendendo cursar Direito, a fim de se tornar advogado.

Bandeira do Partido Republicano

A 25 de março de 1876, é criado, com o consentimento do rei D. Luís I, o Partido Republicano. A 3 de abril desse ano, é eleito o seu primeiro diretório, constituído, entre outros, por, Latino Coelho, Oliveira Marreca, Elias Garcia e Consiglieri Pedroso.

Alfredo, padrasto de Maria Isabel, havia concluído, havia alguns anos, o Curso Superior de Letras, tendo sido convidado a dar ali aulas. Consiglieri Pedroso, diretor daquela instituição, nutria grande estima por ele, tendo-o convidado a integrar, como secretário, o primeiro diretório do novo partido.

Nas eleições legislativas, realizadas a 3 de outubro de 1878, o Partido republicano elege dois deputados.

D. Carlos, futuro rei de Portugal, durante a sua adolescência

Maria Isabel havia completado, em fevereiro, trinta e três anos de idade.

D. Luís I já lhe tinha apresentado potenciais interessados em se casarem com ela, mas, secretamente, desejava que esta continuasse solteira, para se dedicar, a tempo inteiro, à educação do infante D. Carlos.

O futuro rei irá fazer quinze anos em setembro. Para complementar a sua instrução, o pai sugere que este realize uma viagem por diversas cortes europeias ligadas à monarquia portuguesa por traços familiares ou antigas alianças. A Marquesa de Marinhais, como sua perceptora, é convidada a acompanhar o infante nessa viagem.

Durante esse périplo, está prevista uma ida a Sigmaringen, para D. Carlos conhecer a sua tia D. Antónia, o que origina em Maria Isabel uma intensa alegria, pois teria a oportunidade voltar a estar com a sua irmã-de-leite.

A 10 de agosto de 1878, pelas dez horas da manhã, D. Carlos parte, na corveta Bartolomeu Dias, em direção à zona portuária que serve a cidade de Londres, primeira etapa da viagem. Para além da Marquesa de Marinhais e dois criados, faz parte do séquito do príncipe o jovem capitão Rodrigo de Andrade, indigitado por D. Luís I para os acompanhar.

Na noite desse dia, quando já percorriam a costa atlântica de Portugal, Maria Isabel detém-se um pouco mais na Sala de Jantar, conversando animadamente com o capitão Rodrigo, elegantemente trajado com a sua farda de gala.

– Senhor capitão: Sua Majestade, o rei, disse-me que vossa senhoria é uma pessoa muito viajada.

– Sim, já percorri quase toda a Europa, integrado em missões diplomáticas – responde o capitão, com um atraente sorriso no rosto.

– Apesar de possuir a maioria das ações de uma companhia de navegação, é a primeira vez que realizo uma viagem marítima – afirma a marquesa.

– Nunca é tarde para começar a viajar – assinala o capitão. – O meu falecido avô, com quem fui criado desde criança, também era militar, tendo alcançado o posto de general. Quis que eu seguisse a carreira militar, mas o meu maior sonho era conhecer outros países. Integrar a carreira diplomática constituiu, para mim, uma enorme oportunidade.

Maria Isabel sente-se agradada com a amena conversa que está a estabelecer com o seu interlocutor, dois anos mais velho do que ela, considerando-o uma pessoa muito agradável.

Nos dias seguintes, ambos permanecem mais algum tempo dialogando, após as refeições.

A viagem continua a decorrer calmamente, embora no Canal da Mancha o mar se tenha apresentado um pouco alteroso, provocando alguns enjoos à Marquesa de Marinhais.

Desembarcam em Inglaterra numa manhã chuvosa. À sua espera, encontra-se o embaixador português em Londres, acompanhado por Eça de Queiroz, que regressará, em breve, a Lisboa, após ter desempenhado funções de cônsul em Newcastle e Bristol.

Inicialmente, estava previsto que ficariam alojados nas instalações da embaixada, mas a rainha Vitória oferece-se para os acomodar no Palácio de Buckingham, em Westminster, sua residência oficial desde 1837.

D. Carlos, Maria Isabel e o capitão ficam alojados em três aposentos no primeiro andar e os dois criados são acolhidos na zona dos serviçais.

A monarca britânica concede, no dia seguinte, uma audiência ao jovem príncipe português e seus acompanhantes, tendo tecido uma elogiosa referência à velha aliança que une os dois países.

Quando o capitão Rodrigo apresenta a Marquesa de Marinhais à Rainha Vitória, esta demonstra já conhecer um pouco da vida de Maria Isabel, o que muito a espanta:

– Soube que esteve noiva de D. Pedro V de Portugal. Os meus sentimentos pela sua morte.

Carruagem do Metropolitano de Londres, inaugurado a 10 de Janeiro de 1863

Da parte da tarde, enquanto o infante D. Carlos fica no palácio real a conviver com elementos da corte, Maria Isabel e o capitão dão um passeio por Londres.

– Sei que a Senhora Marquesa esteve na inauguração dos caminhos-de-ferro em Portugal. Gostaria que viajasse comigo no London Underground, também conhecido por The Tube.

– Terei muito gosto em acompanhá-lo. Já li alguns artigos sobre esse novo meio de transporte metropolitano – responde Maria Isabel. – Trata-se do primeiro sistema ferroviário subterrâneo, ligando dois pontos de uma cidade. Quando estará algo assim disponível em Lisboa?

Após alguns dias de permanência na Escócia e na Irlanda, D. Carlos e a sua comitiva embarcam num vapor em direção a Ostende, seguindo, por via férrea, para Sigmaringen.

Maria Isabel e a sua irmã-de-leite voltam a encontrar-se ao fim de dezassete anos, caindo nos braços uma da outra, não conseguindo evitar que abundantes lágrimas de comoção escorram pelos rostos de ambas.

Leopoldo, marido de D. Antónia, recebe calorosamente a marquesa, apresentando-lhe os filhos que ambos haviam tido: Guilherme, futuro titular de Hohenzollern, Fernando, futuro rei da Roménia e Carlos António, o mais novo dos três irmãos.

Num baile realizado nessa noite no Palácio de Sigmaringen, Frederico, o irmão-de-leite de Leopoldo, tenta beijar Maria Isabel de forma indecorosa, tendo sido admoestado pelo capitão Rodrigo de Andrade, que começara a demonstrar estar muito interessado numa aproximação mais íntima com a marquesa.

Após ter terminado o baile, Maria Isabel permanece ainda várias horas conversando com D. Antónia, recordando a juventude de ambas na corte portuguesa.

Nos dias imediatos, as duas irmãs-de-leite passeiam alegremente pela cidade, apesar de o tempo atmosférico já se apresentar um pouco instável.

A partida da comitiva de D. Carlos para outras cortes da Europa Central, deixa um grande vazio em D. Antónia e uma profunda mágoa em Maria Isabel.

Em Viana de Áustria, o capitão Andrade decide declarar o seu amor por Maria Isabel, beijando, com ternura, as suas alvas mãos.

– Gosto muito de si. Quer casar-se comigo?

– Também simpatizo consigo – responde esta – mas não lhe posso dar já uma resposta. Tenho de me aconselhar primeiro com a minha mãe e o meu advogado.

O capitão estranha esta resposta, mas aceita aguardar mais algum tempo, até ao regresso a Portugal.

Desastre ferroviário de Ermesinde

A 11 de outubro de 1878, ocorre um acidente ferroviário junto a Ermesinde, no concelho de Valongo, devido a excesso de velocidade da locomotiva, tendo provocado seis mortos, incluindo o maquinista. O escritor português Camilo Castelo Branco viajava numa das carruagens, tendo ficado ferido, embora sem gravidade.

Praia no sul de Goa, antiga possessão portuguesa na Índia

A 26 de dezembro, é assinada, em Lisboa, uma aliança económica entre Portugal e o Reino Unido, relativamente às possessões que ambos possuíam na Índia.

Conhecida por Tratado Anglo-Português de 1878, esta aliança, que se tornaria efetiva a partir de 15 de janeiro do ano seguinte, pretendia acabar com o isolamento comercial da Índia portuguesa, expandindo a sua economia. Para o efeito, é criada, naquela região, uma união aduaneira entre os dois territórios, incluindo a construção de uma linha férrea que os interligasse, o futuro Caminho de Ferro de Mormugão. Em troca, Portugal permite que o sal goês seja explorado pelos britânicos que já detinham o monopólio deste produto na Índia.

O Reino Unido acabaria por limitar a produção do sal em Goa, lançando na miséria os camponeses que se dedicavam a este trabalho, originando a sua emigração para a Índia britânica, principalmente para Bombaim.

Ponte Eiffel, em Viana do Castelo

No ano de 1878, são abertas ao público, no âmbito ferroviário, inúmeras estações e apeadeiros, para além de importantes infraestruturas como a Ponte de Viana do Castelo, mais conhecida por Ponte Eiffel e a Ponte sobre o rio Guadiana.

Jardim Botânico de Lisboa

Em Lisboa, é inaugurado o Observatório Astronómico e o Jardim Botânico, contendo este último diversas espécies tropicais oriundas da China, Japão, Austrália, Nova Zelândia e América do Sul.


© Jorge Francisco Martins de Freitas, 23-10-2022.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.



ENTRE PARAGENS

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