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A IRMÃ DE LEITE DA PRINCESA



romance publicado todos os domingos em episódios sequenciais
autor: Jorge Francisco Martins de Freitas

Episódio 22

Em 1865, os estudantes de Coimbra haviam começado a alegar que a literatura romântica falseava a vida real, apresentando uma visão tradicional, academicista e formal da sociedade portuguesa, conduzindo a um atraso cultural em relação às novas tendências europeias. Segundo estes, era necessário efetuar, no campo das letras, uma transformação consentânea com a realidade.

Estas duas visões literárias darão origem a uma disputa, que ficará conhecida por Questão Coimbrã. Era liderada, por um lado, pelo escritor romântico António Feliciano de Castilho, e, pelo outro, por Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro, estudantes da Universidade de Coimbra que abraçavam o realismo.

A Questão Coimbrã constituiu um marco importante na ascensão do movimento realista em Portugal, originando uma nova forma de fazer literatura.

A partir de 1867, José Maria de Eça de Queiroz, que viria a tornar-se no maior vulto da literatura realista em Portugal, passa a frequentar as reuniões culturais realizadas, com frequência, na Mansão dos Marinhais.

Maria Isabel sente uma grande atração por este escritor, mas ele não demonstra ter por ela semelhante afeição, apesar de a tratar com a mais elevada consideração.

A marquesa começa a aperceber-se que a sua postura culta e independente inibe a maioria dos homens de encetar uma aproximação mais íntima, preferindo mulheres recatadas, submissas e com menos conhecimentos.

Nesta época, era inconcebível que uma dama da alta sociedade tomasse a iniciativa de convidar um cavalheiro a acompanhá-la a um espetáculo teatral. No entanto, Maria Isabel afeitou-se a fazer este convite a Eça de Queiroz, com um expressivo sorriso no rosto:

— No próximo sábado, à noite, o Teatro de São Carlos apresenta a ópera Fausto, do compositor Charles Gounod. Aluguei um camarote para eu e minha família assistirmos a esse espetáculo. Como o meu padrasto tem de se deslocar ao Porto nesse dia, a minha mãe e eu, convidamo-lo a acompanhar-nos.

Eça fica um pouco surpreendido com o convite, mas responde, de imediato:

— Será para mim uma grande honra. Aguardarei por vós à entrada do teatro.


Imagem atual do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa

Chegado o dia do espetáculo, as três arcadas do Teatro de São Carlos apresentam-se profusamente iluminadas, contrastando com a fraca claridade emitida pelos candeeiros públicos existentes no largo fronteiriço.

Das inúmeras carruagens que vão parando à entrada do edifício, descem cavalheiros trajando elegantes fatos de gala e senhoras ostentando vistosos vestidos compridos.

O edifício, construído à semelhança do La Scala de Milão, fora inaugurado a 30 de junho de 1793, pelo príncipe regente D. João, para substituir o Teatro Ópera do Tejo, destruído no terramoto de 1755.

Assim que o coche com Maria Isabel e sua mãe estaciona em frente à entrada do teatro, Eça de Queiroz ajuda-as a descer, acompanhando-as, através do foyer, para o respetivo camarote.

A sala de espetáculos, com formato elíptico, apresenta-se completamente revestida por talha dourada, ostentando um imponente camarote real, onde a Marquesa de Marinhais já havia estado diversas vezes.

A iluminação a gás, introduzida em 1850, fornece um maior esplendor a todo o conjunto.

Maria Isabel senta-se ao lado de Eça, desejando secretamente que este demonstre algum afeto por ela. Gostaria que ele afagasse suavemente as suas mãos, mas este não demonstra o menor interesse em fazê-lo, preferindo rabiscar com um lápis algumas notas no livreto da ópera.

Dias mais tarde, Eça de Queiroz publica, na Gazeta de Portugal, a crónica Mefistófeles, exaltando as características positivas desta personagem demoníaca, figura principal da ópera Fausto, cujo comportamento o aproxima dos seres humanos.


Inauguração do Monumento a Camões, em Lisboa

A 9 de outubro de 1867, antecedendo a comemoração do terceiro centenário da morte de Camões, que se celebraria 13 anos mais tarde, é inaugurado, em Lisboa, pelo rei D. Luís e por seu pai, D. Fernando, um monumento a Camões, custeado por subscrição pública.

Esculpido por Vítor Bastos, é constituído por uma estátua em bronze figurativa de Camões com a altura de 4 metros, assente sobre um pedestal oitavado em mármore branco, medindo 7,5 metros de altura.

À volta do pedestal, ostenta oito esculturas em pedra de lioz com 2,40 metros de altura cada uma, representando os historiadores Fernão Lopes, João de Barros e Fernão Lopes de Castanheda; o cosmógrafo Pedro Nunes; o cronista Gomes Eanes de Azurara e os poetas Vasco Mouzinho de Quevedo, Jerónimo Corte-Real e Francisco de Sá de Meneses.

Os proprietários de diversos estabelecimentos fabris de Lisboa deram folga aos seus operários, para que pudessem assistir a este acontecimento. Maria Isabel também esteve presente, acompanhando a família real.

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A 1 de janeiro de 1868, ocorre a Janeirinha, um movimento contestatário em protesto às leis que criavam o imposto de consumo e procediam à reforma administrativa do território. A grande adesão que este teve junto da população do país, principalmente nas cidades de Lisboa, Porto e Braga, levam, três dias mais tarde, à queda do governo.

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Dez anos decorrem sobre este acontecimento, durante os quais os sucessivos governos são chefiados por cinco nomes sonantes da História de Portugal, alguns deles por mais de uma vez: Conde d' Ávila (mais tarde Duque), Marquês de Sá da Bandeira, Duque de Loulé, Duque de Saldanha e Fontes Pereira de Melo.

A Marquesa de Marinhais continua a aprofundar os seus já vastos conhecimentos através da leitura de eminentes nomes da cultura europeia, dedicando-se, igualmente, à administração dos bens herdados, ao desenvolvimento da escola privada por si fundada e à educação do futuro rei D. Carlos. Mentaliza-se, em definitivo, que um eventual casamento, para além de poder constituir um entrave à sua independência, colocará nas mãos do marido a vasta fortuna que possui, situação para a qual o advogado já várias vezes a alertara.

Bandeira do Partido Republicano

Nos últimos doze anos, quatro forças políticas são constituídas: o Partido Reformista (1865), o Partido Operário Socialista (1875), o Partido Progressista (1876) e o Partido Republicano.

Este último é criado a 25 de março de 1876, com o consentimento do rei D. Luís I. A 3 de abril, é eleito o seu primeiro diretório, constituído, entre outras personalidades, por Latino Coelho, Oliveira Marreca, Elias Garcia e Consiglieri Pedroso.

Alfredo, padrasto de Maria Isabel, havia concluído, havia alguns anos, o Curso Superior de Letras, tendo sido convidado a dar ali aulas. Consiglieri Pedroso, diretor daquela instituição, nutria grande estima por ele, tendo-o convidado a secretariar o diretório do novo partido.

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A 3 de outubro de 1876, realizam-se eleições legislativas, tendo o Partido Republicano, onde milita Diogo, elegido dois deputados.


Ponte ferroviária Maria Pia, entre e Porto e Vila Nova de Gaia

A 4 de novembro de 1877, é inaugurada a Ponte de D. Maria Pia, concluindo, assim, a ligação ferroviária entre Lisboa e o Porto.

Esta infraestrutura foi projetada pelo Engenheiro Théophile Seyrig e construída pela empresa de construções metálicas de Gustave Eiffel de forma a apresentar uma grande solidez.

Era, na altura, a ponte com o maior arco em ferro do mundo.

A fim de comprovar a sua segurança, um comboio com 24 carruagens, transportando mais de 1200 convidados, atravessa a ponte até ao Porto, regressando a Vila Nova de Gaia. Seguidamente, é a vez da composição real realizar o mesmo percurso.

Um pavilhão, erguido no lado sul da ponte, acolhe o rei D. Luís I, a sua esposa D. Maria Pia e os príncipes D. Carlos e D. Afonso. Maria Isabel também está presente, acompanhando o futuro rei de Portugal, na altura com 14 anos de idade.

A direção da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses e todos os engenheiros envolvidos na construção da ponte, incluindo Eiffel, sobem ao palanque, a fim de cumprimentar a família real.

Durante três dias, o povo festejou esta inauguração. O comércio local fechou, as ruas da cidade do Porto foram engalanadas e houve animação musical em diversas praças.

Os portuenses viram na chegada do caminho de ferro à Cidade Invicta o início de uma enorme melhoria nas ligações ao resto do país e ao estrangeiro.


© Jorge Francisco Martins de Freitas, 16-10-2022.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.

CRÉDITOS

A imagem do Teatro Nacional de São Carlos foi obtida na respetiva página oficial.


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