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A IRMÃ DE LEITE DA PRINCESA



romance publicado todos os domingos em episódios sequenciais
autor: Jorge Francisco Martins de Freitas

Episódio 18

Maria Isabel há muito nutria por D. Pedro V uma enorme admiração, não apenas pela forma atenciosa como sempre havia tratado D. Estefânia, como igualmente pelos elevados princípios sociais que o norteavam.

Ambos valorizavam a igualdade entre todos os seres humanos, independentemente do estatuto social da família em cujo seio tivessem nascido, um ideal que D. Maria II sempre se preocupara em transmitir aos filhos.

O monarca havia acabado com o a etiqueta palaciana do beija-mão real assim como com o ato de dobrar o joelho na sua presença, procedimentos de servilismo por ele considerados indignos. Era, igualmente, contrário à pena de morte, pois nenhum homem tinha o direito de tirar a vida a outro. Via a Justiça como um ato de correção dos delinquentes através da reclusão, período que deveria ser aproveitado para os corrigir, antes de voltarem a ser inseridos na sociedade.

Por todos estes motivos, mesmo que D. Pedro não fosse rei, Maria Isabel tê-lo-ia aceitado como esposo.

O enlace entre ambos é marcado para o dia 10 de novembro de 1861, um domingo, na capela do Palácio das Necessidades. O pai do noivo pretendia que o matrimónio se realizasse na Igreja de São Domingos, mas os nubentes optaram por um casamento mais discreto, com um número limitado de convidados, pelo que aquele templo possuía o espaço suficiente para o efeito.


Sala Carmesim, no Palácio das Necessidades

Antes de D. Pedro V se deslocar em serviço ao Alentejo, acompanhado de D. Fernando e D. Augusto, seus irmãos mais novos, Maria Isabel ainda teve a oportunidade de estar por três vezes com o noivo na Sala Carmesim, enquanto este, sentado ao piano, interpretava conhecidas composições clássicas. O rei sempre demonstrou o maior respeito pela noiva, limitando-se a acariciar as suas alvas mãos.

Quando D. Pedro regressa do Alentejo, começa a sentir febre, assim como o seu irmão D. Fernando. No início de novembro, o estado de saúde de ambos assume um carácter mais grave. Maria Isabel é aconselhada pelo médico da corte a não se aproximar deles, tendo aquele igualmente sugerido o adiamento do casamento, até o monarca se restabelecer.

A 6 de novembro, o infante D. Fernando morre, vitimado pela cólera, o que causa uma enorme consternação entre a família real.

A Marquesa de Marinhais receia que rei também não resista. Na manhã em que deveria casar-se, dirige-se à capela do palácio, pedindo a Deus que salve o seu amado Pedro.

No dia seguinte, 11 de novembro, os sinos batem a rebate em todas as Igrejas da cidade: o rei de Portugal acabara de falecer, aos 24 anos de idade, vitimado pela febre tifoide.

Maria Isabel, banhada em lágrimas, encerra-se no quarto, dilacerada pela dor.

D. Pedro V, no decorrer do seu curto reinado de seis anos, para além de ter sido um dos monarcas mais cultos de Portugal, revelou possuir uma imensa profundidade humana e um raro pendor social. Infelizmente, durante esse período, o país foi avassalado por trágicos acontecimentos: enormes incêndios, cheias destruidoras (1855), um terramoto com grandes proporções (1858) e inúmeros surtos epidémicos, como a cólera, a febre-amarela, a difteria e a febre-tifoide.

Durante estas epidemias, D. Pedro V, assim como D. Estefânia, nunca se refugiaram em áreas do interior do país menos contaminadas, antes pelo contrário, mantiveram-se na cidade, visitando diariamente enfermos hospitalizados, o que lhes granjeou uma imensa estima entre a população.

Mais de cem mil pessoas participam, em Lisboa, nas exéquias do monarca e, no resto do país, a consternação é igualmente avassaladora, pois o rei havia criado, mercê da sua angelical figura e serena postura, uma áurea de bondade que a todos sensibilizava.

Pela cidade corre o boato de que o rei teria sido envenenado pelo Presidente do Conselho de Ministros, Marquês (mais tarde duque) de Loulé, com o intuito de colocar no trono o seu filho, neto de D. João VI, conduzindo ao surgimento de diversas revoltas levadas a cabo por populares, mas estas são prontamente contidas por elementos policiais. Os tumultos continuariam, no entanto, por mais três anos, sendo apenas colmatados em 1864.

Como D. Pedro não havia deixado descendência, o trono de Portugal iria passar para o seu irmão D. Luís, na qualidade de segundo filho de D. Maria II.

O novo monarca havia recebido uma educação quase tão esmerada como a do seu irmão mais velho, tendo enveredado pela carreira naval. Nomeado por D. Pedro V comandante da corveta Bartolomeu Dias, desempenhou inúmeras missões ao serviço da armada portuguesa, tendo transportado até Lisboa os príncipes Jorge da Saxónia e Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, a fim de estes se casarem respetivamente com as infantas D. Maria Ana e D. Antónia, encarregando-se, igualmente, da viagem de regresso destes, acompanhados das jovens esposas.

Quando D. Luís toma conhecimento da morte do irmão, encontrava-se no sul da França, a bordo da corveta Bartolomeu Dias, tendo regressado, de imediato, a Lisboa.

A 14 de novembro, D. Luís proclama-se rei de Portugal. No dia seguinte, as Cortes ratificam o juramento feito e declarado durante a proclamação, efetuando-se a cerimónia de aclamação a 22 de dezembro.

Cinco dias mais tarde, morre o infante D. João, vitimado pela febre-tifoide.

No final desse ano, vários servidores do palácio das Necessidades também são vitimados pela mesma febre. Entre eles, a senhora Luísa, cuja morte, ocorrida a 30 de dezembro, ocasiona uma profunda consternação entre os criados, apesar das reprimendas que esta lhes dirigia.

Maria Isabel também apresenta alguns sintomas epidémicos, mas consegue sobreviver.

As sucessivas mortes dos filhos de D. Maria II levam à elaboração de um projeto de lei estipulando que as princesas poderiam aceder ao trono, no caso de D. Augusto e D. Luís falecerem sem deixar descendência, assumindo D. Fernando II a regência do reino.

O marido da defunta D. Maria II pede a Maria Isabel que continue a viver no Palácio das Necessidades, não apenas por quase se ter tornado rainha consorte de Portugal, mas sobretudo pela estima que toda a família real nutre por ela.


Diogo, meio-irmão de Maria Isabel

Na véspera de completar dezassete anos de idade, um novo elemento surge no agregado familiar da marquesa de Marinhais: Diogo, filho de Ana Francisca e Alfredo. Maria Isabel encontrava-se há duas semanas na sua mansão, apoiando a mãe nos últimos dias de gravidez. O nascimento do meio-irmão deixa-a encantada, servindo de lenitivo para o sofrimento que vinha experimentando desde a prematura morte de D. Pedro.

Havia necessidade de casar rapidamente D. Luís I, para que este deixasse descendência.

O pai do rei sugere que este se consorcie com a Marquesa de Marinhais, mas nenhum dos dois demonstra grande inclinação um pelo outro, apesar de manterem uma excelente relação de amizade e ambos apreciarem a literatura. D. Luís notabilizar-se-ia neste campo, ao traduzir para português obras de William Shakespeare.


Maria Pia de Saboia

Fica, então, determinado casar o monarca com uma princesa europeia, como vinha sendo hábito, tendo a escolha recaído sobre Maria Pia de Saboia, filha do rei Vitor Emanuel II da Itália.

O contrato de casamento é negociado entre Luís António de Abreu e Lima, Conde da Carreira, por parte de Portugal e Jacques Durando e Jean Nigra, respetivamente ministro dos Estrangeiros e senador, por parte de Itália, tendo sido assinado a 9 de agosto de 1862.

O enlace realiza-se, por procuração, a 27 de setembro, na capela do Palácio Real de Turim.

Antes de partir para Lisboa, a bordo da corveta Bartolomeu Dias, D. Maria Pia concede vinte mil francos aos pobres da sua cidade, tendo solicitado ao pai que decrete uma amnistia para todos os presos políticos, pedido que Vitor Emanuel II aceita cumprir.

A corveta chega à capital portuguesa a 5 de outubro, tendo fundeado em Belém. D. Luís I, acompanhado do pai e de elementos do governo, sobe a bordo para conhecer a noiva.

Só no dia seguinte se procede ao desembarque no Terreiro do Paço, sendo D. Maria Pia e a sua comitiva recebidos num vistoso pavilhão erguido no Cais das Colunas, como já acontecera com D. Estefânia.


© Jorge Francisco Martins de Freitas, 18-09-2022.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.

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Créditos

A imagem de Diogo, meio-irmão de Maria Isabel, é baseada num retrato de bebé do pintor Honorio Romero y Orozco (1867-1920).

A imagem de D. Maria Pia de Saboia, rainha consorte de Portugal, é baseada numa fotografia restaurada e colorida por Gabriel Soares.



ENTRE PARAGENS

Conjunto de contos inéditos de Jorge Francisco Martins de Freitas que vem sendo disponibilizado gratuitamente no Magazine cultural sem fins lucrativos O Leme.

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