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A IRMÃ DE LEITE DA PRINCESA



romance publicado todos os domingos em episódios sequenciais
autor: Jorge Francisco Martins de Freitas

Episódio 17

No dia seguinte ao pedido de casamento formulado por D. Pedro V à marquesa de Marinhais, este transformara-se no assunto de todas as conversas entre os servidores do Palácio das Necessidades, pois os dois criados que tinham servido o romântico jantar e escutado, atrás da porta, a conversa entre ambos, foram incapazes de guardar só para si tamanha novidade.

Ao tomar conhecimento desta notícia, a senhora Luísa dirige-se, de imediato, aos aposentos de Maria Isabel, denotando uma ligeireza que dificilmente esperaríamos observar numa pessoa de sessenta e oito anos de idade.

– Desejo um bom dia a vossa senhoria! – exclama a chefe dos criados, após ter sido autorizada por Maria Isabel a entrar no quarto. – Quero ser a primeira a dar os parabéns à futura rainha consorte de Portugal!

– As notícias correm muito rapidamente neste palácio! – declara a jovem marquesa, com um sorriso nos lábios.

Entretanto, D. Pedro V toma o pequeno-almoço acompanhado do pai e dos irmãos Fernando e A>ugusto. O monarca aproveita esse momento para informar a família sobre o pedido de casamento que fizera à Marquesa de Marinhais.

– E ela aceitou? – pergunta o pai.

– Aceitou, sim! – responde o filho, extremamente feliz.

– A sua mãe gostava muito de Maria Isabel, vendo-a quase como uma filha – diz o antigo monarca regente. – Eu também simpatizo bastante com ela. É muito educada e culta. Pela minha parte, abençoo esse matrimónio!

– Obrigado, meu pai!

– O meu criado pessoal referiu-se esta manhã a esse pedido de casamento – informa o infante D. Fernando, – mas pensei tratar-se de mais um mexerico!

– Acho que o meu irmão faz muito bem em se casar de novo. – afirma o infante D. Augusto. – Irei gostar muito de ter a Maria Isabel como minha cunhada.

A meio da manhã, a irmã de leite da princesa sai do quarto para tomar também o pequeno-almoço, tendo notado que todos os servidores do palácio se inclinam, mais respeitosamente do que é habitual, à sua passagem.

Quando está prestes a terminar a refeição da manhã, dirige-se ao criado que a serve à mesa, pedindo-lhe:

– Assim que começar a servir o almoço a Sua Majestade, comunique-lhe que eu não estarei presente porque vou ter com a minha mãe e só regressarei à noite. E peça, também, ao meu cocheiro para ter a carruagem pronta, pois irei sair dentre de momentos.

– Assim farei! – responde o criado, executndo uma vénia. – Irei avisar imediatamente o senhor Bernardo, cocheiro de vossa senhoria!

Meia hora mais tarde, Maria Isabel chega à sua mansão, sendo imediatamente recebida por Bonifácio.

– A minha mãe está em casa? – pergunta a irmã de leite da princesa, desejosa de comunicar a grande novidade à sua progenitora.

– Está sim, senhora Marquesa! – responde o velho mordomo. – Está a almoçar com o senhor Alfredo.

– Ainda bem que estão os dois! – responde Maria Isabel, subindo rapidamente a imponente escadaria que conduz ao piso superior.

O padrasto está a ler para a esposa um artigo da sua autoria que publicara no último número do jornal A Luta do Povo, enquanto aguarda que a Elisa e a Fernanda tragam a sobremesa da cozinha.

Por sua vontade, teria ficado a residir no bairro Alto, mas Ana Francisca conseguiu convencê-lo a permanecer na mansão da filha. De início, estranhou um pouco, pois não se sentia à vontade vivendo na residência de uma titular da alta nobreza, rodeado de criados, situação que via como uma contradição perante os ideais republicanos pelos quais pugnava. Porém, aos poucos, começou a gostar da situação que lhe fazia lembrar os tempos da sua meninice, em casa da Marquesa do Alandroal.

Assim que Maria Isabel entra na Sala de Jantar, ambos se levantam para a receber. Já há muito estava habituada a ver Alfredo bem-trajado, mas a sua mãe só recentemente começara a vestir-se melhor. Os elegantes trajes que agora usa são extremamente encantadores, realçando a sua beleza.

– Minha mãe, tenho uma grande notícia para lhe dar! – diz Maria Isabel, com uma imensa felicidade estampada no rosto. – O rei pediu-me em casamento!

Ana Francisca, apanhada de surpresa, não consegue exprimir qualquer palavra. Limita-se a abraçar a filha, enquanto lágrimas de felicidade escorrem pelo seu rosto.

Alfredo olha atónito para esta cena, custando-lhe a acreditar que a sua enteada irá ser rainha consorte de Portugal. Como poderá, a partir daquele momento, continuar a escrever artigos apelando ao fim da monarquia?

Na tarde do dia seguinte, D. Pedro, acompanhado por Maria Isabel, reúne-se com o pai e irmãos a fim de preparar a cerimónia do casamento, apesar de alguns nobres que frequentam a corte terem sido da opinião que o rei deveria consorciar-se, como vinha sendo hábito, com uma princesa europeia.

Depois do jantar, a marquesa dirige-se aos seus aposentos e começa a escrever uma carta dirigida a D. Antónia, em resposta à que esta recentemente lhe enviara:

:


Palácio da Pena,
uma das sete maravilhas de Portugal

No alto da serra de Sintra, junto ao Castelo dos Mouros, é edificado, no século XII, uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora da Pena.

Quatro séculos mais tarde, D. Manuel I manda construir, neste mesmo lugar, o Real Mosteiro de Nossa Senhora da Pena, mais tarde entregue à Ordem de São Jerónimo.

O terramoto de 1755 deixa o mosteiro em ruínas. Alguns monges não abandonam o local, recolhendo-se numa gruta existente nas proximidades.

Em 1834, com a extinção das ordens religiosas em Portugal, esta edificação fica completamente ao abandono.

Quando D. Fernando se casa com D. Maria II, apaixona-se por Sintra, tendo adquirido, com dinheiro oriundo da sua fortuna pessoal, as ruínas do Mosteiro de São Jerónimo e as matas envolventes, com o intuito de aí construir uma residência de verão para a família real.

Mais tarde, encantado com a luxuriante paisagem que dali se desfruta, convida o Barão Wilhelm Ludwig von Eschwege, um engenheiro residente em Portugal, a ampliar a sua ideia original, transformando-a num vistoso palácio romântico, três décadas antes de ser construído o famoso Schloss Neuschwanstein, na Baviera, edificação que serviu de modelo para os Estúdios Disney desenharem o castelo de Cinderela.

O palácio incorpora referências arquitetónicas de influência manuelina e mourisca, possuindo elementos desenhados pelo próprio rei consorte.

Castelo de Neuschwanstein
Schloss Neuschwanstein, em alemão
(imagem captada pelo autor)


© Jorge Francisco Martins de Freitas, 04-09-2022.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.



ENTRE PARAGENS

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