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A IRMÃ DE LEITE DA PRINCESA



Romance publicado todos os domingos em episódios sequenciais

Autor
Jorge Francisco Martins de Freitas

Episódio 13

Habituada às amenas temperaturas das margens do rio Reno, D. Estefânia dá-se mal com o calor de Lisboa, pedindo ao marido, com frequência, para passarem alguns dias no Palácio da Vila de Sintra, envolto em frescas e edílicas paisagens.

O Palácio das Necessidades – local onde permanece a maioria do tempo – tem, para ela, apenas dois aspetos positivos: é arquitetonicamente muito semelhante ao Palácio de Jägerhof, em Düsseldorf, onde cresceu, e possui, tal como ele, belos jardins onde, nas tardes de verão, procura abrigar-se das ardentes temperaturas, acolhendo-se à sombra dos frondosos arvoredos ali existentes.

A rainha consorte sente-se feliz com o amor que o marido lhe dedica, mas, numa carta íntima que dirige a sua mãe, refere que o excessivo luxo e pompa ostentado pela corte portuguesa a deixam desconfortável, chegando ao ponto de se sentir confrangida na presença do próprio sogro.

Em conjunto com o marido, funda diversos hospitais e instituições de caridade, visitando-os com regularidade, o que contribui para granjear uma enorme popularidade entre os portugueses.

Infelizmente, uma tragédia está prestes a abater-se sobre este simpático e culto casal real.

O ano de 1859 marca a entrada de Portugal no sistema métrico e a criação do Curso Superior de Letras, subsidiado por D. Pedro V com um donativo de noventa e um contos de réis, retirado do seu próprio bolso.


Casamento de Ana Francisca com Alfredo

A 20 de março, Ana Francisco e Alfredo consorciam-se, na Igreja de Santa Catarina, na calçada do Combro, em Lisboa.

Para além de Maria Isabel e D. Antónia, os nubentes contaram com a presença da senhora Luísa e do mestre Teodósio como padrinhos.

Na véspera, os criados do Palácio das Necessidades fizeram uma festa de despedida a Ana Francisca que, após o casamento, passa a viver com o marido no Bairro Alto, deixando a filha, por vontade expressa desta, na companhia de D. Antónia e dos restantes elementos da família real.

Durante muitos anos, a mãe de Maria Isabel esperou vir a ter a oportunidade de se casar com o pai da sua filha, mas a contínua oposição do Marquês de Marinhais a este enlace inviabilizou a concretização desse desejo. Mais tarde, após ter sido chamada para estar à cabeceira do seu moribundo amado, ainda pensou que D. Luís Xavier Mascarenhas de Noronha a convidaria para ficar a residir na sua casa senhorial, ajudando a criar a neta, mas o austero militar nunca demonstrou essa vontade, antes pelo contrário, pediu-lhe que continuasse a esconder a origem do pai da criança.

Após ter começado a trabalhar como jornalista no periódico republicano A Luta do Povo, dirigido pelo seu antigo mestre Teodósio, Alfredo reiniciou os estudos que havia interrompido aos 15 anos de idade. Já não tinha em vista tornar-se médico veterinário, mas sim seguir um curso superior que o ajudasse a singrar na carreira política, contando, para isso, com o apoio de eminentes figuras desta área com quem vinha estabelecendo contactos.

Aparentemente, este casamento trazia vantagens para ambos os nubentes: Alfredo via em Ana Francisca uma excelente esposa, pois, para além do seu natural encanto, era detentora de uma esmerada postura, adquirida, ao longo dos anos, no relacionamento formal existente na corte. Por seu lado, a mãe de Maria Isabel considerava o antigo moço da estrabaria uma pessoa educada e com boa presença, que, caso viesse a adquirir uma posição privilegiada no panorama político português, certamente lhe daria uma vida estável e digna.


D. Maria Ana, infanta de Portugal

O casamento de D. Pedro V com D. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen retira a D. Maria Ana o papel de dama mais importante da Corte Portuguesa, levando-a, por vezes, a formular comentários pouco elogiosos em relação à sua cunhada, embora esta sempre tecesse os maiores elogios sobre a irmã do marido.

Seguindo os costumes da época, o rei decide casá-la com um príncipe, recaindo a escolha em Jorge da Saxónia, que se desloca a Lisboa para o enlace.

A Rainha D. Estefânia tudo faz para este casamento ser rodeado de alguma pompa, mas o mesmo acaba por decorrer de forma bastante discreta.

Durante a boda, realizada a 11 de maio de 1859, o príncipe Jorge da Saxónia deixa uma péssima impressão na Corte: não demonstra grande afeição pela noiva, mal se dirigindo a ela, e não socializa com a família real portuguesa e seus convidados, mantendo-se afastado no decorrer do baile realizado em sua honra.

Este facto passa despercebido a Maria Isabel e a D. Antónia, mais preocupadas em participar, pela segunda vez, num baile real.

Os nubentes ficam os primeiros dias de casados no Palácio de Belém, onde a infanta Maria Ana, então com 15 anos de idade, é vista a chorar. Bem demonstrativo da pouca simpatia que o príncipe nutre pela sua jovem esposa, é o facto de se ter recusado a acompanhá-la a uma ida ao teatro, para a qual ambos tinham sido convidados.

Os noivos partem para a Saxónia três dias mais tarde. A infante não tem permissão para levar consigo nenhuma dama, sendo apenas acompanhada, durante a viagem, por D. Luís, seu irmão.

Antes da partida, a infanta Maria Ana havia renunciado aos direitos de sucessão ao trono português. Apenas os poderia recuperar se a linha masculina dos Bragança se extinguisse completamente, o que esteve quase para acontecer, como se verá mais tarde, dando razão a D. Maria II quando esta se preocupava em deixar o maior número possível de descendentes, mesmo pondo em risco a própria vida.

Maria Ana nunca foi feliz com o príncipe Jorge, apesar de ter tido com ele oito filhos.

* * * * * * * *

Notas

A imagem representando o casamento de Ana Francisca com Alfredo é baseada num quadro do pintor Edmund Leighton (1853-1922).

A imagem de D. Pedro V alusiva à Fundação, em 1859, do Curso Superior de Letras, foi reconstruída a partir de uma pagela filatélica emitida pelos CTT, a 3 de agosto de 1961.

Copyright

© Jorge Francisco Martins de Freitas, 14-08-2022.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.


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