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A IRMÃ DE LEITE DA PRINCESA



romance publicado todos os domingos em episódios sequenciais
autor: Jorge Francisco Martins de Freitas

Episódio 10

Sentado numa elegante bergère em mogno, o Marquês de Marinhais observa a agitada luminosidade que a lareira projeta na parede oposta da sala, aparentando dar vida a uma velha pintura a óleo de seu pai, uma majestosa figura onde ressaltam uns penetrantes olhos esverdeados encimando uma bem cuidada barba branca.

Enquanto saboreia um cálice de vinho do Porto que o mordomo Bonifácio lhe havia trazido, recorda a história da sua família.

O pai, Teodósio de Noronha, apesar do seu pomposo nome, era um humilde trabalhador rural nascido em Cantanhede. Ainda muito novo, casara-se com Ermelinda, uma camponesa originária de Foros de Muge, aldeia para onde decidem ir viver, em virtude de a nubente possuir ali um casebre edificado pelos seus falecidos progenitores, que, apesar de exíguo, reunia as condições mínimas para ser por eles considerado um lar.

Pouco a pouco, a aldeia, cercada por extensos baldios, passa a ser conhecida por Camarinhais, em virtude da grande quantidade de camarinheiros que ali nasciam espontaneamente, cujos pequenos frutos – as camarinhas – iam saciando a fome dos habitantes locais. Com a passagem do tempo, Camarinhais perde o fonema inicial, fixando definitivamente o seu nome em Marinhais.

O único rendimento que auferiam estes aldeões advinha de trabalhos sazonais que realizavam, de sol a sol, nas extensas propriedades ribatejanas e alentejanas, recebendo por essas tarefas uma diminuta remuneração que se revelava insuficiente para adquirir artigos de primeira necessidade.

Teodoro várias vezes pensara em ir para o Brasil, onde muitos portugueses tentavam alcançar uma melhor vida, mas teria de deixar a mulher sozinha, decisão que há muito o atormentava. A súbita morte de Ermelinda, vitimada pela cólera quando estava grávida do primeiro filho, deixa-lhe o caminho livre, empregando-se como aprendiz de marinheiro numa embarcação que faz viagens entre Lisboa e o Rio de Janeiro.

Assim que o navio chega ao seu destino, arranja trabalho como capataz na roça do “coronel” Mascarenhas, deixando-se enamorar por Helena, a filha do fazendeiro. Inicialmente, o pai desta não vê com bons olhos a inclinação que a sua única descendente detém pelo mais recente trabalhador, mas acaba por aceitá-lo como genro, por considerar que Teodósio era dotado de um elevado espírito de iniciativa, capacidade que, bem gerida, o tornariam num excelente administrador da sua propriedade, quando tivesse de entregar a alma ao Criador.

Após a morte do sogro, Teodósio não só desenvolve esta roça cultivando nela produtos mais rentáveis, como adquire outras plantações, transformando-se no mais rico fazendeiro da região do Rio de Janeiro.

Com os lucros obtidos, manda edificar, com vistas para a baía de Guanabara, uma sumptuosa residência e diversos prédios para arrendamento que contribuem para o embelezamento da cidade.

Em 1808, com a chegada da família real portuguesa, a sua presença junto do príncipe-regente passa a ser constante, transformando-se no mais dileto conselheiro de D. João, executando, em seu nome, inúmeras tarefas da administração do Reino, situação que provoca a inveja não apenas dos nobres da corte como igualmente de outras distintas personalidades há muito radicadas no Rio de Janeiro.

O Largo do Carmo, atual Praça XV de Novembro, em 1818. À esquerda, é visível o Paço Real, residência de D. João VI

Ao entardecer, era frequente vê-lo no Paço Real conversando animadamente com o príncipe-regente sobre os frequentes mexericos surgidos na corte. No final desses encontros, a conversa resvalava, inúmeras vezes, para o encanto que possuía Marinhais, a aldeia onde vivera vários anos, antes de vir para o Brasil:

— Um dia que Vossa Alteza regresse a Lisboa, sugiro que se desloque a Marinhais, o local ideal para caçar javalis!

Com a morte, a 20 de março de 1816, da rainha D. Maria I, o príncipe-regente passa a ser tratado por Sua Majestade D. João VI, Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Uma das primeiras ações por ele praticadas consistiu na atribuição do título nobiliárquico de Marquês de Marinhais ao fidelíssimo conselheiro Teodósio de Noronha, que muito o havia ajudado na administração dos assuntos correntes do Reino.

Luís Xavier Mascarenhas de Noronha, nascido a 23 de janeiro de 1801, era o único filho que o Marquês de Marinhais possuía, como resultado do seu enlace com Helena. Foi-lhe proporcionada uma cuidada educação, tendo sido um dos primeiros alunos da Real Academia Militar do Rio de Janeiro, criada pela Carta Régia de 4 de dezembro de 1810.

Pressionado pelas cortes portuguesas, D. João VI vê-se obrigado a embarcar para Lisboa a 25 de abril de 1821, após uma permanência de treze anos no Brasil, deixando no Rio de janeiro o seu filho D. Pedro como regente em seu nome.

D. Teodósio decide acompanhar o soberano, tendo vendido todo os bens que possuía no Brasil.

Desembarque de D. João VI em Lisboa

Os navios com o rei e sua comitiva entram no porto de Lisboa a 3 de julho.

Assim que desembarca, o Marquês de Marinhais começa a procurar um lugar para viver, tendo adquirido, perto do Palácio das Necessidades, uma mansão onde se instala com a esposa e o filho, investindo o resto do dinheiro que trouxera do Brasil em prédios de arrendamento e numa companhia de navegação marítima.

D. Helena, habituada às cálidas temperaturas cariocas, adoece nesse inverno, acabando por morrer vitimada por uma gripe. O primeiro Marquês de Marinhais ainda sobrevive mais três anos, acabando por falecer a 7 de novembro de 1824.

Vinhedos refletidos nas águas do rio Douro, entre Alijó e Carrazeda de Ansiães

O título nobiliárquico de Marquês de Marinhais passa Luís Xavier que, entretanto, se consorciara com D. Constança, única filha de D. Raimundo, um nobre da região do Douro, de quem herda diversos vinhedos, ampliando ainda mais o seu já vasto património.

Prosseguindo a carreira militar, o novo Marquês de Marinhais junta-se às forças liberais na luta que estas travam contra os absolutistas, distinguindo-se em todas as batalhas em que participa, o que contribui para alcançar, com rapidez, o posto de General.

Como fruto do seu casamento com D. Constança, nasce um único herdeiro, que, anos mais tarde, se enamorará de Ana Francisca.

Com a morte da esposa e do filho, D. Luís Xavier Mascarenhas de Noronha não tem mais nenhum familiar para quem passar o título de Marquês de Marinhais, assim como a administração dos bens de que é detentor.

Olhando novamente para o retrato a óleo pendurado na parede em frente, decide expressar o dilema que o aflige:

— Meu pai! O que devo fazer? Voltar a casar com outra mulher que me dê descendência ou reconhecer Maria Isabel como minha neta?

Quando cita o nome da irmã de leite da princesa tem a sensação de observar um sorriso de aprovação nas faces do pai, mas a decisão que vier a tomar terá de ser por si devidamente ponderada.

Um recanto da Tapada das Necessidades, anexa ao palácio

Fevereiro de 1857 vinha constituindo um mês atípico, com temperaturas bastante superiores àquelas que seria espetável ocorrerem em pleno inverno.

Maria Isabel e D. Antónia decidem, pela primeira vez, comemorar o aniversário natalício conjuntamente, realizando um picnic na Tapada das Necessidades, aberto a outros jovens da sua idade. Filhos de nobres e de serviçais são convidados para este evento, que decorre com a maior animação e harmonia, tendo Sua Majestade, o Rei D. Pedro V, estado presente por alguns instantes.

O apreço que os portugueses nutrem pelo novo monarca é bem visível através dos cognomes que lhe atribuem: O Esperançoso, O Bem-Amado ou O Muito Amado. Defensor de valores sociais e sempre preocupado com o bem-estar dos seus concidadãos, havia colocado, à entrada do Palácio das Necessidades, uma caixa verde de que apenas ele possuía a chave, para que qualquer pessoa ali pudesse deixar cartas expressando as suas queixas.

A alguma distância, Ana Francisca, acompanhada de Alfredo, a quem concedera uma maior proximidade, observa, com ternura, a sua filha.

Rodeada por um apreciável número de moços, Maria Isabel brilha como uma preciosa pérola, trajando um encantador vestido cor-de-rosa que D. Antónia lhe oferecera como prenda de aniversário. À vista de todos estava patente que deixara de ser uma criança, convertendo-se numa elegante senhorinha.

© Jorge Francisco Martins de Freitas, 24-07-2022.
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