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A IRMÃ DE LEITE DA PRINCESA



romance publicado todos os domingos em episódios sequenciais
autor: Jorge Francisco Martins de Freitas

Episódio 3

Na acolhedora Sala Branca, um dos aposentos particulares de Sua Majestade no remodelado e ampliado Palácio das Necessidades, D. Maria II, sentada junto à lareira, segura carinhosamente nos braços o infante D. Augusto, seu oitavo filho, nascido há quinze semanas. Como já vinha sendo hábito, o parto havia sido doloroso para a rainha, o que muito afligiu os médicos da corte.

Sala Branca, no Palácio das Necessidades

De pé, à direita da soberana, o rei consorte D. Fernando II, acompanhado por D. Pedro e D. Luís, respetivamente com dez e nove anos de idade, olham, sorridentes, para o príncipe mais novo. Sentados no chão, os infantes D. João e D. Maria Ana, o primeiro com cinco anos e a segunda com quatro, entretém-se a empilhar uns cubos coloridos de madeira, que acabam sempre por tombar, para grande arrelia de ambos. O infante D. Fernando, com cerca de dezasseis meses de idade, encontra-se, a um canto da sala, ao colo da ama.

Um bolo é trazido por dois serviçais e colocado sobre a pequena mesa existente no aposento. D. Antónia, trajando um encantador vestido de cetim, passa a ser o centro das atenções, pois celebra, neste dia, o seu terceiro aniversário natalício.

Ana Francisca já não amamenta a princesa, mas continua a ser sua ama, permanecendo discretamente a curta distância desta. Semiescondida atrás das saias da mãe, Maria Isabel observa D. Antónia a conviver com os seus verdadeiros irmãos. Ambas continuam inseparáveis, passando a princesa mais tempo com a ama e sua filha do que com a família real.

A infanta aniversariante chama Maria Isabel para o pé de si. Recatadamente, Ana Francisca segura a mão da filha, impedindo-a de ir ao encontro da princesa. Esta, porém, insiste, gritando:

– Isa, venha para o pé de mim!

A rainha, única monarca europeia da época nascida fora do velho continente, possui uma visão da sociedade distinta da maioria dos outros soberanos, temperada pelas cálidas e informais vivências da sua meninice em terras brasileiras. Já há muito se apercebera do estreito relacionamento existente entre a sua filha e Maria Isabel, pelo que se dirige a Ana Francisca dizendo:

– Pode deixar a sua filha vir comer uma fatia de bolo!

Ao chegar aos ouvidos da senhora Luísa que Maria Isabel fora autorizada por D. Maria II a se juntar à família real para comemorar o aniversário de D. Antónia, a inveja que a chefe dos criados nutre por Ana Francisca aumenta consideravelmente.

Portugal havia passado, nos últimos anos, por tumultuosos acontecimentos sociais e políticos.

Uma revolução, ocorrida em setembro de 1836, implantara, dois anos mais tarde, uma nova Constituição, substituindo a Carta Constitucional de 1826.

Esta mudança havia originado duas fações políticas: a dos “setembristas”, liberais de esquerda que apoiavam a Constituição de 1838 e os “cartistas”, liberais de direita que apoiavam a Carta Constitucional de 1826.

Entre 1842 e 1846, um novo ciclo político surgiu em Portugal: o Primeiro Cabralismo, chefiado por António Bernardo da Costa Cabral, advogado que começara a sua carreira como “setembrista” radical e havia se desviado para a direita, tornando-se a figura mais saliente da ala ortodoxa do “cartismo”.

Em janeiro de 1842, Costa Cabral proclamou, no Porto, a restauração da Carta Constitucional, sendo apoiado, em Lisboa, por um pronunciamento militar levado a cabo pelo duque da Terceira.

D. Maria II apoiou, de imediato, a reintrodução da Carta Constitucional que fora escrita e implementada pelo seu pai, D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, chamando o duque da Terceira para presidir a um novo governo onde Costa Cabral desempenhava o cargo de ministro do Reino.

Embora nominalmente o duque da Terceira fosse o chefe do executivo, quem na verdade comandava os destinos de Portugal era Costa Cabral que procurou, desde o início, estabelecer uma nova ordem política e social, através de um poder forte e centralizador. Para o conseguir, o ministro do Reino não se inibiu de recorrer a processos extremos, como irregularidades eleitorais, frequentes encerramentos do Parlamento durante meses, supressão das garantias individuais com a consequente prisão de opositores, desmantelamento da imprensa oposicionista e até o fuzilamento de quem fosse apanhado com armas ou estivesse envolvido em movimentos revoltosos. Com todas estas medidas, o governo acaba por se assumir como uma ditadura.

Este clima de autoritarismo, conjugado com o aumento de impostos e uma profunda reforma centralizadora a nível administrativo, judicial e religioso – os defuntos passaram a ser obrigatoriamente enterrados em cemitérios públicos e não nas igrejas – origina um enorme mal-estar entre a população que passa a ver as decisões do governo como uma ingerência no ancestral modo de vida das suas comunidades, considerando-as mais próprias de um regime absolutista do que de um Estado liberal.

Maria da Fonte

Estes acontecimentos conduziram a que centenas de mulheres do norte de Portugal saíssem à rua se manifestando ruidosamente contra estas leis. Como muitas delas foram presas, as contestatárias, munidas com chuças, roçadouras, paus, forcados de ferro, machados, e algumas até com armas de fogo, como a lendária Maria da Fonte, assaltaram as cadeias e libertaram as suas companheiras, ao mesmo tempo que, entre vivas à rainha, gritavam a plenos pulmões:

– Abaixo as leis novas!

– Leis velhas acima!

– Morte a Costa Cabral!

Com o intuito de pôr fim a esta revolta, a 20 de maio de 1846, a rainha viu-se obrigada, a contragosto, a demitir Costa Cabral das funções de ministro do Reino, tendo este partido para Madrid onde ficou exilado.

No mesmo dia, o Duque de Palmela foi nomeado presidente do Conselho de Ministros, mas pouco tempo ficaria neste cargo, pois, a 6 de outubro de 1846, D. Maria II, convencida por Costa Cabral de que o duque de Palmela se inclinava demasiadamente para a esquerda, chamou-o ao palácio e, assim que este ali chegou, demitiu-o e deu posse a um novo governo totalmente cartista e dominado pela Maçonaria, entregando ao Duque de Saldanha a sua presidência. Este episódio ficou conhecido na História de Portugal por Emboscada.

Esta nomeação deu origem à guerra civil da Patuleia, opondo os cartistas (com o apoio da rainha D. Maria II) a uma coligação que juntava setembristas e miguelistas. Este conflito apenas terminou a 30 de junho de 1847, com a vitória dos cartistas.

Portugal entrou, então, num período menos conflituoso, tendo a imprensa voltado a ser livre.

Pouco tempo após D. Antónia e Maria Isabel terem celebrado o seu terceiro aniversário natalício, surgem seis jornais dedicados ao republicanismo cujos fundamentos já se encontravam latentes em diversos movimentos sociais e políticos: A Alvorada, É Tarde, O Regenerador, O Republicano, A Fraternidade e a República.

O moço da estrebaria continuava empenhado na conquista de Ana Francisca. Muitos outros serviçais e até alguns fidalgos que desempenhavam diversos cargos na corte tinham tentado a sua sorte, mas acabaram por desistir, perante o desinteresse por ela demonstrado.

Alfredo era filho do cocheiro da Marquesa do Alandroal, tendo ficado órfão em criança. A aristocrata, que se havia afeiçoado a ele, pagou-lhe os estudos primários e, mais tarde, inscreveu-o no Liceu Central de Lisboa, atual Escola Secundária Passos Manuel. Gostaria de se tornar médico veterinário, mas a prematura morte da marquesa, quando este tinha apenas quinze anos, impediu-o de continuar os estudos, tendo arranjado emprego como moço de estrebaria da casa Real, por recomendação de um nobre que frequentava a mansão da sua defunta protetora e conhecia a dedicação com que este tratava os equídeos.

Após ter cuidado dos cavalos e guardado os arreios, dirige-se para a pequena alcova que, no interior das cavalariças, lhe serve de quarto. Acende uma vela e pega num jornal que havia achado na rua: o primeiro número de O Regenerador, datado de 16 de abril de 1848. As primeiras linhas deste periódico, dedicado à causa republicana, chamam, de imediato, a sua atenção:

«Hoje que O VELHO MUNDO DESABA, é já tempo de, em Portugal, uma voz se levante d’entre o Povo, e diga ao Povo o que lhe convém querer; e diga aos inimigos e aos falsos amigos do Povo, o que este quer.»

* * * * * * * *

Ligações aconselhadas

Os mais antigos jornais republicanos
(1848)

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© Jorge Francisco Martins de Freitas, 05-06-2022.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.


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